Encontrei um texto e achei um dos mais coerentes que já li.
Trata-se da real situação das escolas públicas do país, nunca vi tanta verdade escrita. Fui estudante de Escola Pública e sei das dificuldades reais desse sistema educacional para poucos. Acredito que a sabotagem educacional nada mais é do que o ''alimento do sistema'' de uma sociedade desigual e excludente. Temos basicamente a educação pública- jogada às traças, manipulada e mentirosa, que é destinada à pobres para que continuem ignorantes e, vejam bem, pobres. E, por assim dizer, temos a educação particular (onde já li diversos artigos que também não são lá aquelas coisas, levando-se em consideração os parâmetros internacionais) que educam pessoas para serem nossos médicos, advogados, engenheiros... Ou seja, é desde a escola que temos a relação patrão e empregado, já que é destinada a escola para o empregado(pública) e o patrão(privada).
Mas por incrível que pareça a história educacional brasileira sempre foi assim. Desde os tempos da escravatura a educação era destinada para os ricos, e não só no Brasil em uma contextualização histórica mundial, desde o primórdios da humanidade temos um divisão preestabelecida por meio da educação. Tudo devidamente ''intencionado''.
Quando era estudante não frequentava regularmente a escola, faltava muito e justificava muito bem os motivos das faltas. Eu simplesmente preferia estudar em casa com os livros que comprava usado na internet ou que pegava na biblioteca desativada da escola -tinha o auxílio da internet também- e metia a cara nos livro por conta própria, já que frequentar a escola não tinha nenhum sentido pois os professores faziam exatamente o que eu fazia - pegavam seus livros velhos e escreviam no quadro de giz o que achavam importante, nada mais. Até ai, tudo bem. O problema era quando nem isso era feito muitos professores -desmotivados, tristes e deprimidos pelos baixos salários e o desrespeito dos alunos mal-educados que se multiplicavam- simplesmente resolviam passar um filme, ou imprimiam uma atividade qualquer que encontravam na internet, ou mandavam fazer um cartaz sobre a morte da bezerra, ou -em casos frequentes- mandavam os alunos pra ''puta que pariu'' e deixavam-nos livremente vandalizando os corredores da escola.
EU NUNCA ESTUDEI GEOMETRIA NA ESCOLA, nunca, nunquinha. Eu fui aprender a fazer uma redação quando fui prestar vestibular. Eu fiz 8 anos de inglês na escola e aprendi só mal e porcamente o verbo ''to be''. A minha maior dificuldade era e é a Gramática , pela qual nunca tive uma aula na escola, nem sabia o que era um verbo... Sem contar a péssima estrutura, quando chovia éramos obrigados a encher de baldes e panos dentro da sala de aula para que ninguém escorregasse.
O texto é esse: OU MELHORA A ESCOLA PÚBLICA (E MUITO) OU A DESIGUALDADE NÃO DIMINUI (NUNCA)
Por: Daniel Hortêncio de Medeiros
Em seu livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, o economista
Alexandre Rands Barros, professor da UFPE, Ph.D em Economia pela
universidade de Illinois (EUA), compara as regiões Nordeste e Sudeste do
Brasil analisando , principalmente, a desigualdade em face de uma
menor concentração de capital humano no Nordeste.
Para o
professor Rands, é um erro acreditar que o desenvolvimento do Nordeste
passe por mais investimentos em infraestrutura e atrativos para
instalação de empresas. Ao contrário, os investimentos no
desenvolvimento industrial e tecnológico no Nordeste ampliaram a
desigualdade, na medida em que cooptaram os jovens mais bem qualificados
da região, oriundos de famílias de classe média alta e alta, ampliando
assim a distância entre o topo e a base da pirâmide, em um falso ou no
mínimo distorcido sentimento de “progresso e crescimento da região”.
Como afirma o autor: A mudança de foco ( deve ser) radical. Deixar-se-ia
de subsidiar empresários nordestinos com os recursos disponíveis para
políticas regionais e passar-se-ia a subsidiar a formação de capital
humano, cuja apropriação dos resultados seria voltada principalmente
para a população jovem mais pobre. ( pg 236)
O último ENEM
trouxe uma informação fundamental: a associação entre o resultado das
escolas e o nível socioeconômico dos seus alunos e alunas. E o resultado
demonstra claramente a perversa realidade destacada pelo professor
Alexandre Rands: os melhores resultados do ENEM, ranqueando as melhores
escolas, na sua esmagadora maioria, são de alunos de nível
socioeconômico muito alto e alto.
Um único exemplo: as mil
melhores escolas, praticamente todas são escolas com alunos de nível
socioeconômico alto e muito alto. 907 são particulares. Das 93 públicas,
72 são federais ( com seleção e nível social elevados) e apenas 21
estaduais.
Fica claro pelo resultado do ENEM, que a meritocracia é
uma forma de ocultar desigualdade e, embora alunos pobres possam
avançar na escala social, essa chance é residual. A solução é investir
pesadamente na educação pública de qualidade ou conformar-se com a
perpetuação e cada vez maior ampliação do fosso de desigualdade social
no país.
No entanto, como diz Alexandre Rands de Barros, sobre a
dificuldade de os recursos do governo federal e estadual concentrarem-se
fundamentalmente em melhoria do capital humano nas camadas mais pobres
da população:
com isso, os segmentos sociais beneficiados seriam
completamente diferentes. Isso dificulta a implementação de tal política
porque os beneficiários de hoje seriam fortes opositores e eles tendem a
ter um poder político forte.
O resultado do ENEM 2014
prestou um serviço ao mostrar, por um lado, o impacto pequeno da escola
quando o aluno tem suporte socioeconômico e, por outro lado, a
importância enorme de a escola pública suprir essa falta de suporte –
com professores qualificados para dar aula, com materiais adequados para
o aprendizado, com ambiente compatível com as exigências do estudar,
com horário integral para que o aprendizado possa se dar no tempo
necessário para ser feito com qualidade, com acompanhamento de tutores,
psicólogos, orientadores ( tudo o que os jovens de nível socioeconômico
muito alto e alto possuem) – e competir, aí sim , em pé de igualdade.
Quando tudo isso for disponibilizado para a população de estudantes pobres, e só aí, será possível dizer: “que vença o melhor”.
Fonte: Gazeta do Povo